3# BRASIL 4.12.13

     3#1 ENTRE O LOBBY E A CELA
     3#2 O DANGOO DOS TRENS
     3#3 A ALMA DO NEGCIO
     3#4 CONFUSO NO AR E EM TERRA

3#1 ENTRE O LOBBY E A CELA
Ao contrrio da maioria dos presos, o ex-ministro Jos Dirceu no enfrentou o preconceito na hora de arrumar emprego. Um empresrio do ramo hoteleiro com interesses no governo estendeu-lhe a mo.
ADRIANO CEOLIN E HUGO MARQUES

     O empresrio de comunicao Paulo Masci de Abreu sempre apostou na proximidade com polticos para ter sucesso nos negcios. Em 1985, contratou Jnio Quadros para apresentar um programa na Rdio Tupi, uma de suas emissoras na capital paulista. Era o espao de que o ex-presidente precisava para recuperar sua popularidade e vencer a eleio  prefeitura de So Paulo naquele ano. Na dcada de 90, Abreu se aproximou dos tucanos que conquistaram a Presidncia da Repblica. Jos de Abreu  irmo dele e atual presidente do PTN  foi eleito deputado federal pelo PSDB em 1994, na mesma votao que consagrou Fernando Henrique Cardoso. Com a vitria de Lula em 2002, Paulo de Abreu passou a construir pontes com o PT, abrindo espao em suas rdios a polticos do partido e patrocinando eventos e shows para sindicatos ligados  sigla. Em 2011, no primeiro ano de mandato da presidente Dilma Rousseff, a Rdio Tupi realizou, em parceria com a CUT, a festa do Dia do Trabalho. Tanta dedicao nunca foi  toa. O empresrio sempre esperou em retribuio uma autorizao do governo para retomar a concesso pblica da TV Excelsior, cujos canais no Rio e em So Paulo foram cassados pela ditadura depois de comprados pelo ento deputado federal Dorival de Abreu, seu outro irmo, j falecido. 
     Quando foi cassada, a TV Excelsior estava  beira da falncia. Hoje, o canal vale, segundo fontes do mercado, cerca de 100 milhes de reais. Apesar dos amigos no governo e no PT, Abreu ainda no conseguiu concretizar essa operao milionria. Nada que o desanime. Pelo contrrio, o empresrio no mede esforos para afagar os poderosos com trnsito privilegiado nas instncias oficiais, mesmo aqueles que esto presos por crimes como corrupo e formao de quadrilha. Na semana passada, Paulo de Abreu anunciou um acordo para contratar o mensaleiro Jos Dirceu como gerente administrativo de um hotel em Braslia. Recolhido a uma cela na Papuda, Dirceu depende de uma autorizao da Justia para comear no emprego. Seu patro no espera que ele cuide da lavanderia, das malas nem do lobby  no do lobby do hotel mas que d uma ajudinha para que a TV Excelsior volte ao ar. Se isso ocorrer, o salrio de 20.000 reais prometido a Dirceu, dez vezes mais do que ganha a gerente-geral do mesmo hotel, ser um mero trocado perto dos ganhos a ser auferidos pelo senhorio. Como a retomada da TV Excelsior depende de um pedido de anistia contra uma medida da ditadura, sempre foram levantadas dvidas sobre se a deciso cabe  Presidncia ou ao Congresso. 
     Em abril deste ano, durante um encontro mundial de donos de emissoras de TV e rdio, Paulo de Abreu revelou ter conversado sobre o assunto com o ex-presidente Lula, de quem recebeu a orientao para contratar o advogado Sigmaringa Seixas a fim de resolver o negcio. Ex-deputado pelo PT e responsvel por cumprir nos bastidores misses espinhosas definidas pelo partido, Sigmaringa tem trnsito fcil na Esplanada dos Ministrios. Amigo de Lula, ele ajudou, por exemplo, o ministro Teori Zavascki a ganhar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF). "Muitos anos atrs, falei com o presidente Lula sobre o ideal de fazer uma rede de televiso com bastante jornalismo na capital da Repblica. A ltima vez que estive com ele foi h sessenta dias", disse o empresrio a VEJA. Lula j se hospedou diversas vezes, e sempre de graa, no hotel de Paulo de Abreu em que Dirceu pretende trabalhar. " tradio nossa: ex-presidenre da Repblica no meu hotel no paga." Diante de tais laos, a contratao de Sigmaringa parecia uma aposta certeira do empresrio. Sigmaringa, como era esperado, no teve dificuldades para abrir portas. Em 23 de setembro, os dois foram recebidos pelo ministro das Comunicaes, o petista Paulo Bernardo. Em pauta, a anistia da TV Excelsior. Sigmaringa usou como argumento jurdico um precedente adotado no caso de uma emissora de rdio catlica cassada na ditadura e anistiada no governo Fernando Henrique. 
     Como a retomada da concesso no saa do papel, Paulo de Abreu se acertou com Dirceu, o mais poderoso dos lobistas desde que foi exonerado da Casa Civil e cassado pela Cmara. O acordo  a notria juno da fome com a vontade de comer. O empresrio ter mais um prcer petista ao seu lado. J Dirceu, caso receba autorizao da Justia, poder sair da Papuda durante o dia. "Foi uma coincidncia. Estava querendo contratar um gerente administrativo", disse o empresrio. Coincidncia demais. "Posso ter falado vagamente com o Jos Dirceu sobre o caso", acrescentou. Formado em direito, o lder mensaleiro ser gerente administrativo do hotel Saint Peter e receber um salrio de 20.000 reais para trabalhar das 8 s 17 horas, com intervalo de uma hora para o almoo. A verso oficial  que o emprego surgiu aps uma indicao do advogado Jos Lus de Oliveira Lima, que defende Dirceu no Supremo. Mas essa verso vale menos do que as tais coincidncias. Nos ltimos anos, Paulo de Abreu e o ex-ministro fizeram uma parceria para criar uma rede de comunicao que garantisse dinheiro e poder ao grupo poltico do chefe da quadrilha do mensalo. Alm da TV Excelsior, o objetivo era ficar com o esplio da famlia de Assis Chateaubriand nos Dirios Associados e retomar marcas como a revista Manchete e o Jornal do Brasil. 
     Se conseguir autorizao da Justia para trabalhar, Dirceu ter o maior salrio do sistema carcerrio de Braslia, segundo a Fundao de Amparo ao Trabalhador Preso (Funap). H 1700 presos trabalhando no Distrito Federal, grande parte nas lavanderias dos hospitais, em servios burocrticos nas administraes regionais e tribunais e na construo civil. H outros 1000 esperando uma oportunidade, vtimas do preconceito que ainda domina os potenciais empregadores. Os detentos que trabalham fora dos presdios ganham, em mdia, 1100 reais por ms. J quem trabalha dentro das prises ganha 80% do salrio mnimo, ou 540 reais. Dirceu  um privilegiado em todos os quesitos. Os presos que conseguem um emprego externo pela Funap no tm direito a frias, dcimo terceiro salrio e previdncia social. J o mensaleiro ter carteira assinada com todos os direitos trabalhistas. Outro condenado no mensalo, o ex-tesoureiro do PT Delbio Soares tambm ter uma jornada de trabalho bem melhor do que a dos demais presidirios. Ex-presidente da CUT, ele recebeu uma proposta da prpria CUT para ser assessor da entidade sindical. O salrio proposto  de 4500 reais. Desde que foram encarcerados, os mensaleiros petistas gozam de uma srie de privilgios. J receberam visitas fora do dia previsto, e seus familiares e amigos no enfrentam filas nem revista rigorosa para entrar no presdio. Na semana passada, os juzes da Vara de Execues Penais do Distrito Federal determinaram a imediata suspenso desse tratamento diferenciado. Exigiram isonomia depois de ouvir as queixas de agentes penitencirios e familiares dos demais detentos. Os juzes temem que os privilgios sirvam de combustvel, por exemplo, para uma rebelio. Enquanto Dirceu e Delbio j tm emprego encaminhado, o ex-presidente do PT Jos Genoino sofreu um importante revs. Juntas mdicas encomendadas pelo STF e pela Cmara decidiram que ele no tem um quadro clnico que justifique, respectivamente, a priso domiciliar ou hospitalar e a aposentadoria por invalidez. Com esses pareceres, a tendncia  que o ministro Joaquim Barbosa determine a volta de Genoino para a Papuda e que a Cmara abra o processo de cassao de mandato contra ele. Os deputados so solidrios a Genoino. Torciam pela aposentadoria dele, mas, sem um documento mdico que a justifique, rogam agora para que ele renuncie. Esse desfecho seria menos desgastante para toda a confraria das excelncias. 

Nome: Jos Dirceu
Emprego: Hotel Saint Peter
Funo: Gerente administrativo
Salrio: 20.000 reais
Situao: Condenado a dez anos e dez meses por corrupo e formao de quadrilha

Nome: Jos Genoino
Emprego: Congresso Nacional
Funo: deputado federal
Salrio: 26.700 reais
Situao: condenado a seis anos e onze meses por corrupo e formao de quadrilha

Nome: Delbio Soares
Emprego: Central [nica dos Trabalhadores (CUT)
Funo: assessor poltico
Salrio: 4500 reais
Situao: condenado a oito anos e onze meses por corrupo e formao de quadrilha


3#2 O DANGOO DOS TRENS
A polcia est investigando outra denncia de cartel a partir de uma carta annima recebida no Japo. O PSDB acusa o ministro da Justia de manipular as informaes.
RODRIGO RANGEL

     A oposio cobrou, na semana passada, a demisso do ministro da Justia, o petista Jos Eduardo Cardozo, acusado de usar o cargo para chancelar denncias apcrifas que incriminam adversrios do PT. Em junho, o ministro solicitou  Polcia Federal que investigasse o contedo de uma carta annima que apontava o envolvimento de polticos do PSDB, DEM e PPS com um suposto cartel formado por empresas multinacionais para ganhar licitaes de metr e trens em So Paulo e no Distrito Federal. Em troca da proteo ao esquema, esses polticos receberiam propina. O problema  que se descobriu que h duas verses para a mesma carta-denncia. A original, em ingls, descreve o funcionamento do cartel. A outra, traduzida para o portugus, inclui o nome dos polticos. Um trecho do documento original informa que cada empresa do cartel "tinha sua prpria maneira de pagar comisses a funcionrios do governo". Esse mesmo trecho, no documento traduzido, relata que "cada empresa tinha a sua prpria forma de pagar a propina ao pessoal do PSDB". Cardozo confirma que encaminhou as duas cartas  polcia, mas que so documentos distintos. A oposio acusa o ministro de manipulao. 
     Novos documentos obtidos por VEJA devem acirrar ainda mais os nimos entre o governo e a oposio. Em setembro, a Polcia Federal recebeu duas novas cartas com revelaes sobre o cartel  e duas inquietantes coincidncias com o episdio descrito acima. As denncias, igualmente annimas, miram a oposio e tambm passaram pela mesa do ministro Jos Eduardo Cardozo antes de ser juntadas  investigao. As cartas annimas, escritas em ingls, foram enviadas  Embaixada do Brasil em Tquio por um suposto funcionrio da Mitsui, a multinacional japonesa suspeita de integrar o cartel ao lado da alem Siemens e da francesa Alstom. Na primeira carta, mais genrica, o remetente informa que altos executivos da Mitsui estariam envolvidos e que, recentemente, a direo da empresa teria mandado destruir documentos que pudessem conter revelaes sobre o esquema em territrio brasileiro. A atuao do cartel, de acordo com o informante, teria comeado em So Paulo, em 1990, e, agora, ele tambm estaria se organizando para manipular a licitao do trem-bala, um projeto do governo Dilma que vai ligar o Rio de Janeiro a So Paulo. 
     Na carta seguinte, que chegou  embaixada dias depois da primeira (veja o fac-smile ao lado), o autor se identifica como funcionrio da diviso de transportes da companhia e acrescenta detalhes sobre o funcionamento do cartel  "dangoo" em japons, como ele faz questo de frisar. O texto lista os nomes dos diretores da Mitsui envolvidos e diz que um deles tinha contato direto com o ex-governador tucano Jos Serra, a quem teria pedido ajuda para desatar a venda de quarenta trens eltricos  Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). O denunciante afirma que da parceria entre a Mitsui e a Siemens resultaram pagamentos de propina a funcionrios da CPTM. O dinheiro teria sido depositado em contas bancrias na Sua. O suposto funcionrio pedia  embaixada que enviasse as denncias ao Ministrio Pblico. 
     As cartas annimas ganharam tratamento de segredo de Estado no caminho entre Tquio e Braslia. A embaixada remeteu os documentos, classificados como secretos, ao ministro das Relaes Exteriores, que os encaminhou a Jos Eduardo Cardozo. O ministro da Justia confirmou ter repassado  Polcia Federal as denncias, que foram anexadas a uma "investigao sigilosa". Cardozo rechaa com veemncia as suspeitas de manipulao poltica do caso. Afirma que apenas cumpre com sua obrigao ao mandar apurar o teor das cartas. O anonimato das denncias no significa que elas no possam ter fundamento. As investigaes j realizadas sobre o cartel dos trens, alis, exibem fartas evidncias de que o esquema consumiu milhes de reais dos cofres pblicos. Na carta questionada pela oposio, h um trecho em que o denunciante menciona um acordo pelo qual ganharia um emprego do PT em troca das revelaes. Corruptos, independentemente da colorao, devem ser investigados e punidos de acordo com a lei. Em um Estado de direito, porm,  inadmissvel que investigaes policiais passem pelo crivo partidrio ou sejam manipuladas de acordo com objetivos polticos. Se isso aconteceu, os responsveis devem ser igualmente punidos. 


3#3 A ALMA DO NEGCIO
A agncia de propaganda do PT tem contratos com o governo federal e, ao mesmo tempo, j prepara a campanha  reeleio da presidente Dilma Rousseff.
DANIEL PEREIRA E RODRIGO RANGEL

     A Pepper Interativa  uma agncia de comunicao que presta servios ao PT. Em 2010, desempenhou papel decisivo na campanha de Dilma Rousseff  Presidncia da Repblica, quando fez de tudo um pouco: da produo de contedo e organizao da militncia nas redes sociais ao pagamento, com dinheiro vivo, do aluguel do imvel de luxo que servia de bunker para a coordenao petista. Essa participao na engrenagem eleitoral ganhou ainda mais destaque depois de VEJA revelar que outra empresa contratada pelo PT, a Lanza Comunicao, montara um grupo clandestino de espionagem no corao da campanha petista. A Lanza teve o contrato rescindido, mas alguns profissionais remunerados por ela foram recontratados pela Pepper para continuar a servio da eleio de Dilma. De coadjuvante, a Pepper passou a protagonista, tornando-se uma ferramenta imprescindvel para a soluo de vrios problemas. Vitorioso na eleio, o PT retribuiu a ajuda recebida e garantiu  agncia contratos milionrios custeados com recursos pblicos. 
     No governo Dilma, a Pepper recebeu pelo menos 3 milhes de reais de sete rgos. Em nenhum dos casos foi contratada diretamente, o que exigiria vencer um processo de licitao. Em todos eles, foi subcontratada por outra empresa, uma forma tradicional de triangulao usada para acobertar certas trocas de lavores to comuns na poltica brasileira. Coube ao ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel  um dos coordenadores da ltima campanha presidencial do PT, guiar a Pepper at os cofres da Unio. Quando Dilma ainda desfilava como candidata, em 2010, Pimentel se reuniu no Rio de Janeiro com representantes da ASTV, uma empresa de comunicao, que passou a trabalhar para a campanha. A empresa foi contratada para enviar mensagens a telefones celulares pedindo votos para Dilma, servio executado em parceria com a Pepper. Tudo negociado por Pimentel. Formalmente, a ASTV recebeu do PT 800.000 reais, de acordo com a prestao de contas apresentada  Justia Eleitoral. Mas essa  s a primeira parte da histria. 
     No governo Dilma, o ministro Pimentel pediu que Alberto Magno, um dos scios da ASTV, viajasse a Braslia. A empresa seria contratada para prestar servio ao Ministrio da Sade. Pimentel nunca comandou essa pasta, mas foi ele quem se encarregou de tratar pessoalmente do contrato, cujos detalhes foram acertados na sede da Pepper. Numa sala de reunies da agncia, Pimentel contou a Magno que a Pepper seria contratada pela Agnelo Pacheco, agncia de publicidade que, vitoriosa numa licitao, prestava servios para o Ministrio da Sade, e ento contrataria a empresa de Magno. Era a subcontratao da subcontratao. O bolo da verba publicitria seria dividido em vrias fatias, mas todos sairiam ganhando. O trabalho era parecido ao executado na campanha: enviar centenas de milhares de mensagens de celular, s que desta vez com alertas contra a dengue. 
     O pagamento  ASTV seria feito de acordo com a quantidade de mensagens enviadas, a depender dos pedidos do Ministrio da Sade. Os valores foram negociados pelo prprio Pimentel, segundo relatos feitos a VEJA, em conversas gravadas, por pessoas que participaram da negociao. O ministrio pagaria 22 centavos por mensagem enviada.  ASTV caberia s uma parte desse valor, 8 centavos, o suficiente para cobrir os custos e obter algum lucro. O restante ficaria com a Pepper e, conforme ficou resolvido na reunio, deveria ser repartido "entre algumas pessoas". No ficou claro quais seriam os beneficirios. Para se ter uma ideia do superfaturamento do contrato negociado pelo ministro Pimentel, a empresa de Magno gastou 160.000 reais para disparar as mensagens. O Ministrio da Sade, porm, pagou  Pepper quase dez vezes mais pelo servio: 1,5 milho de reais. A VEJA, o ministrio confirmou que repassou exatamente esse valor  Pepper, subcontratada pela Agnelo Pacheco, "para a produo de mensagens enviadas via SMS, com o objetivo de conscientizar a populao sobre as formas de preveno e riscos da dengue". At o ms passado, a ASTV no tinha visto ainda a parte do dinheiro que lhe cabia. Recentemente, os representantes da empresa tentaram falar com Pimentel para cobrar a dvida. No tiveram sucesso. Procurado, Fernando Pimentel disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que no se lembra de ter participado da reunio nem de ter frequentado o escritrio da Pepper depois que virou ministro. 
     A Pepper tambm prestou servio para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico e Social. O conselho de administrao do BNDES  presidido pelo mesmo Pimentel  e essa no  a nica coincidncia no caso. A atual mulher de Pimentel, Carolina de Oliveira Pereira,  ex-funcionria do banco e hoje trabalha para a Pepper. Alm do BNDES e do Ministrio da Sade, a Pepper teve como clientes, desde 2011, as pastas do Turismo e das Cidades, a Caixa Econmica Federal, o Sebrae e a Secretaria de Comunicao Social da Presidncia, comandada pela ministra Helena Chagas, ex-contratada da Pepper na campanha de 2010. Todos os rgos afirmam que a lei autoriza as agncias de publicidade que venceram as licitaes a escolher quem ser subcontratado. Essa escolha, conforme a legislao, tem de levar em conta certos requisitos, como a anlise de pelo menos trs propostas e dos respectivos preos cobrados. Fontes do setor de publicidade dizem, no entanto, que a escolha  subjetiva. Ou seja: subcontrata-se quem o cliente  no caso, o rgo pblico  indica. 
     Aberta em 2007 por jornalistas e publicitrios que trabalharam na campanha  reeleio de Lula, a Pepper foi levada pelo marqueteiro Joo Santana a participar da campanha vitoriosa de Maurcio Funes  Presidncia de El Salvador. A relao de Santana com a Pepper, porm, azedou e, ultimamente, chegou ao ponto da ruptura. VEJA perguntou aos donos da Pepper como eles explicariam que sua carteira de clientes pblicos tenha crescido justamente depois que a agncia passou a trabalhar para o PT, o partido do governo. A agncia respondeu que essa era uma  "informao estratgica". Ningum duvida. E ponha estratgia nisso. A Pepper j est trabalhando na campanha de reeleio de Dilma Rousseff. Na semana passada, a agncia defendeu os mensaleiros presos como se falasse em nome da presidente. Foi repreendida pelo Planalto, mas lances assim devem se repetir. O PT reservou 10 milhes de reais para financiar a guerra suja na internet. A primeira aquisio da Pepper com vistas a 2014, fechada recentemente, foi, como era de esperar, a contratao de um conhecido e experimentado especialista em difamao  de adversrios e at de aliados que atrapalhem os planos da turma. 


3#4 CONFUSO NO AR E EM TERRA
Apreenso de helicptero da famlia Perrella com cocana provoca investigaes sobre conduta de deputado mineiro e senador.

     Depois que o sufixo "ao" entrou de vez no vocabulrio dos protestos no Brasil, cada dia aparece um neologismo. J tivemos "apitao", "mamao" e "beijao", e, na ltima quinta-feira, surgiu o farinhao". Munidos de sacos de farinha, cinquenta manifestantes se reuniram na porta da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Eles pediam apurao rigorosa sobre a apreenso, no domingo anterior, de 445 quilos de pasta-base de cocana transportados por um helicptero da famlia do senador Zez Perrella (PDT-MG), ex-presidente do Cruzeiro. 
     O modelo Robinson 66, cuja verso zero-quilmetro custa 1,9 milho de reais, pertence  empresa Limeira Agropecuria, registrada em nome de um filho de Zez, o deputado estadual Gustavo Perrella (Solidariedade), de sua irm Carolina e do primo Andr Almeida Costa. A aeronave foi apreendida em uma operao conjunta das polcias Federal e Militar do Esprito Santo, que resultou na priso do piloto, Rogrio Antunes, funcionrio dos Perrella na Limeira, do copiloto, Alexandre Jos de Oliveira Jnior, e de outros dois homens que recebiam a cocana. Piloto e copiloto alegaram no ter conhecimento de que estavam transportando drogas. Em depoimento, no entanto, Antunes afirmou saber que o contedo carregado era ilcito. At agora, a Polcia Federal descarta a participao dos Perrella no esquema. "Foi como se algum roubasse um carro para cometer crimes", disse o advogado da famlia, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. 
     O transporte da droga no foi o nico problema que o helicptero trouxe aos Perrella. Por causa dele, pai e filho tero de explicar o uso de verba indenizatria com combustveis de aviao, tanto no Senado quanto na Assembleia Legislativa. Em 2013, Zez declarou ao Senado gastos de 11.175 reais com abastecimento de aeronaves. "Eu pago combustvel porque  permitido pelo Senado", afirmou. "Se h algum problema nisso, que se mude o regimento." J o filho teve 14.078 reais de despesas do mesmo tipo pagas pelo Parlamento mineiro. 
     A mesa diretora da Assembleia proibiu, na quinta, o reembolso de combustvel de aeronaves e determinou que a Procuradoria-Geral acompanhe as investigaes da Polcia Federal. O deputado tambm ter de explicar por que indicou Antunes para um cargo comissionado na Casa. At quarta, quando foi exonerado, o piloto recebia 1500 reais mensais. O Ministrio Pblico de Minas Gerais abriu uma investigao para saber se ele era funcionrio-fantasma e uma segunda para apurar se houve desvio de recursos pblicos para o uso privado do helicptero.
LUISA BRASIL E PAOLA CARVALHO


